MMASC cede obras para a exposição “Pessoa. Toda arte é uma forma de literatura”

5 Fevereiro, 2018

O Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso (MMASC) cedeu um conjunto de obras ao “Museo Reina Sofia”, de Madrid, para a exposição Pessoa. Toda a arte é uma forma de literatura”, que decorrerá entre 7 de fevereiro e 5 de maio próximo.

Das obras em causa, sete são quadros de Amadeo de Souza-Cardoso, sendo cinco propriedade do Município e dois de um colecionador particular. Emprestadas foram também oito obras do “Espólio Teixeira de Pascoaes”, incluindo seis da obra plástica do escritor e duas cartas dirigidas a Pascoaes, uma de Miguel Unamuno e outra de Federico Garcia Lorca.

A exposição “Pessoa. Toda arte é uma forma de literatura”, foi buscar o seu título a uma citação de Álvaro de Campos, um dos heterónimos mais vanguardistas de Fernando Pessoa (Lisboa, 1888-1935).

Através da prolífica produção textual dos seus mais de cem heterónimos, Pessoa criou a sua própria vanguarda e tornou-se o intérprete excecional da crise do sujeito moderno e suas certezas, transferindo para o trabalho uma múltipla alteridade que atribuiu à sua desorientação existencial.

“Paulismo”, “Intersecionismo” ou “Sensacionalismo” são alguns dos termos cunhados pelo poeta nos seus numerosos textos e que vertebraram a especificidade da modernidade portuguesa. A exposição utiliza esses ismos para articular uma história visual da cena portuguesa, reunindo uma seleção de obras de José de Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Sarah Affonso e Júlio Pomar, entre outros, relacionados com as principais correntes estéticas portuguesas desde o início do século XX até 1935.

Aquelas correntes mostraram a inevitável influência das tendências europeias dominantes, mas tentaram, contudo, distanciar-se delas. Diferentes escritos de Pessoa dão conta do lugar particular desses ismos de sua colheita, bem como do seu caráter distintivo no contexto europeu, com alusões explícitas, por exemplo, às diferenças entre “Futurismo” e “Intersecionismo”. Por outro lado, várias dessas obras refletem o gosto pela cultura popular e idiossincrática lusas, que aparecem tanto no trabalho dos artistas portugueses que viajaram para Paris, quanto nos estrangeiros que decidiram passar uma temporada em terras portuguesas, como Sónia e Robert Delaunay.

A exposição dedica também especial atenção às revistas publicadas durante este período, como A Águia, Orpheu, K4 O Quadrado Azul, Portugal Futurista ou Presença, em que apareceram alguns dos textos de Pessoa que serviram de caixa de ressonância para as ideias de vanguarda, exercendo uma grande influência estética e ideológica sobre a intelectualidade portuguesa da primeira metade do século XX.

 

Pessoa vanguardista: ciclo de debate

O programa “Pessoa: uma breve história da arte moderna”, que acompanha e complementa a exposição “Pessoa. Toda a arte é uma forma de literatura” que o Museu Reina Sofia dedica à vanguarda portuguesa a partir da leitura do trabalho do poeta português, procura aproximar-se de diferentes perspetivas para uma das narrativas mais complexas, enigmáticas e múltiplas da história da Literatura.

Fernando Pessoa desenvolveu uma escrita composta de fragmentos e vozes que continham um mundo em decomposição, que, juntamente com a prática da heteronímia, lhe permitiram examinar a realidade como um caleidoscópio de infinitas realidades. O seu trabalho, especialmente a produção teórica, foi o catalisador de um corpus mais extenso que incluía boa parte da cena de vanguarda portuguesa das primeiras décadas do século XX. Desta forma, as suas propostas e iniciativas serviram de releitura lúcida e paradoxal dos mitos fundadores da arte moderna.

Concebido como um ciclo de encontros, este programa é dividido em três sessões que examinam as contribuições mais significativas de Pessoa e suas possíveis interpretações no presente e numa história alternativa de arte moderna.

A primeira sessão, “Ismos distintos. Pessoa e a vanguarda”, concentra-se na relação ambivalente do poeta com os principais movimentos artísticos do momento, a que ele não aderiu, apesar de estar ativamente interessado nas suas experiências; e presta especial atenção à série de "ismos" originais – “paulismo”, “intersecionismo” e “sensacionalismo” - que ele cunhou e com os quais colocou a especificidade vanguardista portuguesa, bem como outras formas de pensar a vanguarda.

A segunda sessão, intitulada “Plural como o universo. Pessoa e heterônimos”, abordará a prática da heteronímia no trabalho do escritor, que inclui mais de 100 heterónimos, como Bernardo Soares, autor do “Livro do Desassossego”; o vanguardista Álvaro de Campos ou o mais clássico Ricardo Reis, entre outros.

A heteronímia, esse infatigável exercício de abertura para a multiplicidade e a diversidade, em que coexistem diferentes posições estéticas e filosóficas está diretamente ligado à crise do sujeito moderno que começou a tomar forma no início do século XX, sendo a identidade, a figura do autor e as próprias instâncias radicalmente questionadas.

A última sessão, “O livro como um mundo”, trata da ideia moderna da arte como a criação de uma experiência radicalmente nova e diversificada. Uma linguagem diferente da natural para designar outra realidade. Nesta sessão, o livro será examinado como um artefacto para inventar esses outros mundos possíveis. A sessão encerrará o programa como um epílogo e procurará relacionar o trabalho de Pessoa com as conceções contemporâneas da escrita.

 

(Texto elaborado com base em conteúdos disponibilizados pelo “Museo Reina Sofia”)

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por thesign

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