História do Museu

 

Já nas primeiras décadas do século passado, em Amarante, se retomava a ideia oitocentista de uma Biblioteca a que se acrescentava a mais valia de um Museu. Eram óbvias as justificações culturais num cenário vivido, com fortes personalidades como Pascoaes, António Cândido, Augusto Casimiro e António Carneiro.

Com a extinção das ordens religiosas, na primeira metade do séc. XIX, laicizaram-se os espaços do Convento dominicano de S. Gonçalo de Amarante, ficando, apenas, cometidas à paróquia a igreja do Convento e a sacristia anexa.

Maioritariamente afectado ao município, no Convento se instalarão sucessivamente os Paços do Concelho, Tribunal, Correios e Telégrafo, um aquartelamento militar, repartições oficiais, talhos e armazéns, o Liceu, a Escola da Vila, o Teatro (e mais tarde o Cinema) e mesmo algumas famílias, com o seu bulício diário.

Em 1938 ardia o Cinema instalado na Sala do Capítulo, com espaço anexo e porta expressamente aberta sobre a esplanada, a nascente, facto acelerador de uma nova consciência da reutilização dos espaços.

Então, o Tenente-Coronel Costa Santos, presidente da Comissão Administrativa da Câmara, proporá, na sessão de 20 de Janeiro de 1938, que “Amarante bem merece ter [...] uma biblioteca pública [...] e bem assim um museu [...] em que se recolha e conserve o que a Câmara possa obter [...] como valor d’arte ou de elemento de estudo para o conhecimento nas diversas modalidades deste concelho. E parece-lhe que para tal fim nenhuma dependência do edifício municipal se presta melhor, pelas suas dimensões e pela sua localização [...] do que aquela em que estava o cinema que ardeu há pouco”.

No edifício do Convento, ainda, nos finais de 41 permanecia instalada a escola masculina da Vila, “com manifesta desvantagem para o ensino” e ante a “carência de instalação para o desenvolvimento da parte cultural, instalação de uma biblioteca e muzeu municipaes”.

É neste clima de alguma euforia, sequente ao termo da guerra e no quadro sensível de algum progresso concelhio, que, na sessão de 17 de Janeiro de 1946, o Dr. Albano Sardoeira comunica a Peixoto e Cunha a criação do Grupo dos Amigos da Biblioteca Museu Municipal, com uma lista de 200 subscritores, louvando este a iniciativa e prometendo a rápida instalação da Biblioteca.

Em Junho de 1947 o Director Geral da Fazenda Pública, Dr. António Luís Gomes, afirma que a classificação de monumento nacional não abrange todo o edifício do Convento onde se pretende instalar o Museu mas apenas a sua igreja e claustro e, em Dezembro desse mesmo ano, Peixoto e Cunha apresentou em Câmara a proposta da criação da Biblioteca- Museu Municipal , dirigida por um Conselho Director, a instalar no claustro do Convento e salas anexas, que foi aprovada por unanimidade.

O núcleo inicial é, assim, constituído maioritariamente pelo arquivo municipal, uma pequena biblioteca (com a incorporação de algumas obras do extinto liceu), algumas obras de António Carneiro (conjunto ampliado por doações várias e nos últimos anos pelo legado de Katherine Carneyro), peças de mobiliário, iconografia popular (A Serpe e os Diabos de Amarante), pesos, medidas e insígnias municipais, pedras de armas referidas a capelas, casas senhoriais e igrejas, e um pequeno núcleo de arqueologia do Concelho.

Expandir-se-ia a Biblioteca-Museu com a conquista de novos espaços, disponibilizados pela extinção de alguns serviços e pela deslocação de outros.

Em 1953 inauguram-se aí as Salas de António Carneiro, António Cândido e Amadeo de Souza-Cardoso com apresentação de Augusto Casimiro, llídio Sardoeira e Alexandre Pinheiro Torres.

De Amadeo conhecíamos quase tão-só o nome do Prémio instituído, em 1935, pelo S.N.I., em “política de espírito”, mas, então, expunham-se 33 obras suas como primeiro passo para a sua redescoberta que a monografia de José Augusto França, de 1956, ajudaria a esclarecer.

Manuel Monterroso e Acácio Lino, também amarantinos, eram homenageados em 1954 e 1955 e neste último ano, sintomaticamente, realizava-se na galeria superior do primeiro claustro da Biblioteca-Museu a primeira exposição de arte contemporânea (iniciativa da Galeria Alvarez) com obras de Amadeo, Alvarez, 

 

 

Aníbal Alcino, Augusto Gomes, Carlos Botelho, Carlos Carneiro, Dórdio Gomes, Gastão Seixas, Jaime Isidoro, Júlio Resende e Sousa Felgueiras.

Começava a definir-se a vocação do Museu com o peso da Pintura, ampliava-se o espólio da Biblioteca-Museu, mercê da acção de Victor Sardoeira e do Grupo dos Amigos (fomentadores de doações, ofertas e alguns depósitos), e iniciava-se a passagem a bronze de obras de vários escultores.

Com o Palácio da Justiça definitivamente instalado, obra de Januário Godinho (e vitrais e tapeçaria de Guilherme Camarinha), iniciar-se-á um plano de obras no Convento em 1973, com projecto do Arquitecto Alcino Soutinho, incidindo, numa primeira fase, sobre a ala poente do 2º claustro, a reposição do corpo de separação do 2º e 3º claustros e obras de adaptação e restauro do espaço deste último, do Salão Nobre, da Cozinha dos Frades (transformada em auditório municipal).

Com uma segunda fase de obras, já nos anos 80, ampliam-se os espaços, sobremaneira os destinados à Pintura e Escultura, e realiza-se um programa envolvendo as áreas de recepção, das exposições temporárias e das reservas da Biblioteca-Museu.

Há o sentimento e o entendimento de que deverão autonomizar-se a Biblioteca e o Museu e que a Biblioteca deverá ser instalada em edifício próprio, passando os dois pólos culturais a designarem-se Biblioteca Municipal Albano Sardoeira e Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso.

Em nome de Amadeo e da historicidade da sua obra, o Museu procura uma senda de modernidade. Encadeiam-se as gerações de artistas, com as obras e os autores possíveis, certamente com muitas lacunas que sempre desejamos ultrapassar, mas com uma coerência conciliadora das correntes artísticas com o acerto museológico. Às vezes, forçada a cronologia, proporciona-se, antes, o diálogo das obras, das temáticas ou valoriza-se o espaço e as releituras.

Com legado de Manuel Monterroso (em estudo), com obras de Acácio Lino e António Carneiro, exemplificam-se situações concretas do Naturalismo Português que tardiamente se realizou em Portugal e, sobretudo, permaneceu e prolongou.

Acácio Lino deverá ser visto, ainda, como Pintor de História, na exigência das reconstituições, no fundo poético e simbólico de algumas das suas obras como O Grande Desvairo, Tangente às formulações saudosistas do seu conterrâneo Teixeira de Pascoaes.

Em António Carneiro se entenderá, quase com excepção, o Simbolismo Português, filtrado por Paris, os valores intimistas do retrato, a paisagem metafórica, o desenho vago e indefinido, os interstícios e algumas abordagens expressionistas.

Dir-se-á que à volta deste dois pintores amarantinos se constituiu o núcleo inicial do Museu que progredirá para a ala poente do 2º claustro, aí acrescido com as primeiras obras de Amadeo até à sua definitiva colocação e disposição no actual espaço do Museu, agora valorizado com o legado de D. Lúcia de Souza-Cardoso.

Amadeo constitui a principal referência do Museu, de que é patrono, e a aproximação à sua obra torna-a em instrumento de uma pedagogia da modernidade, com os percursos visíveis do Cubismo à Abstracção, com as notícias do Futurismo, as marcas do Expressionismo e as premonições do Dadaísmo e seus absurdos.

Valores de radicação e modernidade, que Almada Negreiros reconhecia como “descoberta de Portugal no século XX”, dão a esta obra um sentido de intemporalidade, só possível nos grandes criadores.

Redescoberto Amadeo, nos anos 50-60, é em seu nome que no museu se reunirão obras de artistas premiados com o Premio Amadeo de Souza-Cardoso, entre os equívocos de figurativos e abstractos, alimentando a querela até ao questionamento da Escola de Paris, à dita morte das vanguardas americanas e anglo-saxónicas.

Os anos 60-90 aqui se testemunham em amostragens sensíveis, do informalismo e gestualismo ao conceptualismo, até à contaminação das linguagens, à derrisão, a um novo ingenuismo e uma nova figuração ou mesmo uma desaprendizagem caracterizadora da última década.

 

 

Adaptado do texto de apresentação do catálogo do Museu
António Cardoso (1996)
Director do Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso

por thesign

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